Em um momento em que divórcio deixou de ser tabu, permanecer casado é uma escolha tão importante quanto se separar. Então, por que tantas pessoas escolhem permanecer casadas décadas a fio?
Certamente elas acreditam que vale a pena. Até a expressão “valer a pena” indica que nenhum casamento é um paraíso o tempo todo. Há muitos estranhamentos e dificuldades no cotidiano de um casal, principalmente quando têm filhos. Porém, as eventuais “penas” são compensadas por inúmeras vantagens da vida a dois. Elas variam de cultura para cultura e dependem do contexto histórico.
Falando um pouco do passado, quando as cidades eram poucas e pequenas e o normal era viver no campo, a vida dependia muito da família. Imaginem um casal com 8, 9, 10 filhos, morando juntos com avós, tios e primos em uma propriedade comum. Era em família que se produzia o que comer e o que vestir; que se cuidava das crianças e dos doentes; e que se consolava e se divertia. Naquele ambiente, romper um casamento perturbaria toda uma estrutura de subsistência, com danos materiais e emocionais.
Se marido e mulher decidissem se separar, um deles teria que sair de casa. Mas naquele contexto, havia muito poucas opções para onde uma pessoa sozinha pudesse ir. Ele ou ela, talvez, pudessem se agregar a uma outra família. Contudo, eles seriam apenas isso: agregados. A literatura brasileira do século XIX mostra bem a figura do “agregado” – alguém que não passa necessidade, mas que dificilmente tem o sucesso ou a ascensão social de uma pessoa da família.
As coisas mudam quando as cidades crescem e passam a atrair todo tipo de indivíduos, oferecendo oportunidades de ganhar a vida longe da família. Nos centros urbanos, o trabalho se torna emprego, e o vínculo predominante deixa de ser pessoal para se tornar profissional. Afastado dos parentes, o indivíduo ganha “colegas de trabalho” – relações que vêm e que vão.
Os moradores das cidades também se casam. Não mais por tradição ou necessidade material, mas por questões afetivas. É então que casar por amor se torna o grande ideal! Mas será que o amor resiste à rotina doméstica, cujos problemas marido e mulher têm que resolver sozinhos? Ao trocarem laços duradouros de parentesco por laços frágeis de amizade, os indivíduos se acostumam com pessoas entrando e saindo de suas vidas. Assim, parece natural que os cônjuges também venham e vão.
Não surpreende que casamentos nos grandes centros durem menos. Mesmo lá, porém, a maioria dos casais escolhe permanecer unidos. Eles não se iludem com a fantasia do amor romântico e investem diariamente numa relação real. Embora cheia de desafios, a vida a dois baseada no compromisso de cuidado e apoio mútuos é o que faz pessoas maduras optarem por permanecer casadas.