Construí minha carreira em função da busca do equilíbrio entre família e trabalho. Fui adolescente na década de 1980, quando uma menina fazer engenharia ainda era considerado um tanto excepcional. Hoje isso mudou. Há hoje quase tantas meninas quanto meninos nas escolas de engenharia. Mas o que não mudou é o fato de que continua cabendo ao lado feminino manter a família funcionando.
Eu tive o privilégio de nascer com o gosto pelo estudo e com uma pura curiosidade intelectual. Isso me deu alternativas nos momentos mais cruciais da vida adulta. Um desses pontos de ruptura foi meu casamento. Eu e meu marido somos engenheiros. Nos conhecemos durante o mestrado. Decidimos nos casar quando ele teve a oportunidade de assumir um novo desafio na empresa em que trabalhava. A questão era que ele teria que se mudar para outro estado. Minha escolha foi acompanhá-lo. Mas eu não precisei abrir mão de minha vida profissional. Eu apenas tive que ajustá-la. Com um diploma de mestrado, eu agora podia começar uma carreira acadêmica – que é muito mais flexível que a carreira corporativa.
Logo descobri, porém, que não era tão flexível quanto eu pensava. Se fosse para acompanhar meu marido em sua carreira em ascensão, eu teria que abrir mão de ser professora de universidades públicas. A ficha caiu quando, recém casada e morando na Bahia, passei no concurso para a UFBA. Apesar do orgulho em ter conseguido a única e tão disputada vaga, eu não pude assumir. Meu marido acabava de receber outra promoção e éramos transferidos novamente para outra região do país.
Ainda assim, a carreira acadêmica era uma alternativa bem interessante para mim, pois eu poderia lecionar nas universidades particulares que, a partir de 1996, proliferaram pelo Brasil. Resolvi, então investir em um doutorado. Foram seis anos riquíssimos para minha experiência de vida. Conheci muita gente inteligente, estudei assuntos que nem imaginava existirem (como as ciências da complexidade, que serviram de base para minha tese), morei no exterior pela primeira vez (acabei indo sem o meu marido para a Inglaterra, já que ele recebera outra promoção irrecusável), voltei e tive meus dois filhos maravilhosos.
Conforme as crianças cresciam, a carreira de meu marido progredia e eu aperfeiçoava minhas habilidades intelectuais, estudando, pesquisando, lecionando, escrevendo. Meu primeiro livro foi publicado há exatos 20 anos, em 2003. O título era Complexidade e Organizações: em busca da gestão autônoma, pela editora Atlas. Ali eu propunha uma aplicação das ciências da complexidade para a gestão de empresas. Por causa daquele livro, fui convidada para participar de bancas de mestrado e doutorado em todo o país e para palestrar em conferências sobre o tema.
Dez anos mais tarde, meu marido assumia um novo desafio – desta vez em uma grande empresa de educação no Rio de Janeiro. Estávamos, enfim, de volta a nossa casa! As crianças, agora pré-adolescentes, estavam perto dos avós, dos primos, dos velhos amiguinhos de férias. E eu me tornei professora da universidade Estácio, lecionando as disciplinas de Introdução à Engenharia e de Projetos, respectivamente no primeiro e no último períodos dos cursos de engenharias. Tal fato me permitiu acompanhar a trajetória de dezenas de alunos, muitos dos quais tive o prazer de orientar seus trabalhos de conclusão de curso. Foi um grande aprendizado para mim, tanto em termos de conhecimentos técnicos específicos quanto em relacionamento humano. Até hoje, alguns me procuram para trocar ideias, mesmo estando em outras partes do mundo.
E assim os anos foram se passando, enquanto eu conseguia equilibrar as várias esferas da vida que se tornavam mais complexas. Meu filho e minha filha herdaram de meu marido a disciplina e de mim o gosto pelo estudo. Como resultado, em 2016, ele foi aceito em uma universidade de excelência nos EUA e ela, em uma escola tradicional na Inglaterra. Tudo parecia estar encaminhado. Eu e meu marido já planejávamos um período sabático, viajando pelo mundo.
Mas veio o Ano Novo, e nossas vidas se transformaram! Meu filho, então com 19 anos, voltara ao Brasil para comemorar o Reveillon com os amigos de escola. No dia 3 de janeiro de 2017, num cruzamento na estrada de Búzios para o Rio, houve a grande ruptura nessa história. Os seis meses seguintes foram de aprendizado intensivo. Primeira lição: o que é lesão medular? Segunda lição: como é a vida depois da lesão?
Eu disse aqui que meu gosto pelo estudo me deu alternativas nos momentos mais cruciais da minha vida. Assim, minha carreira acadêmica foi útil para que meu filho Giuliano, agora com tetraplegia, fosse capaz de voltar para a universidade e se formar Economista. Graças ao visto de estudante que eu consegui ao iniciar um segundo doutorado, pudemos nos mudar para os EUA e viabilizar os planos de nosso filho. Aquele foi um ponto de bifurcação para todos nós. A partir dali uma nova etapa em nossa história se iniciou – etapa já cheia de conquistas. Meus filhos estão formados, com trabalhos interessantes em grandes empresas no Brasil. Meu marido, com a experiência que adquiriu no doutorado em educação nos EUA, fundou o Instituto Primeira Geração (PriG) para promover a inclusão e desenvolvimento profissional da primeira geração de ensino superior – https://prig.com.br/. Quanto a mim, terminei o doutorado em História na Universidade de Rochester, NY. Desde que comecei em 2018, tenho conhecido gente inteligente de várias partes do mundo e estudado assuntos que eu nem sabia que existiam, tais como História das Emoções – base da minha tese. Mais ainda, redescobri o meu país pesquisando a história das emoções no Brasil. Meu plano é, uma vez defendida a minha tese, publicar o livro Uma História da Autoestima Brasileira.